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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Bom fim de semana! 🥰


Ler/Ouvir Histórias

                            O ladrão de palavras



Um conto maravilhoso de Francisco Duarte Mangas


Há muitos anos, havia um homem que roubava palavras. As nossas melhores palavras. Metia-as, cuidadosamente, num saco de linho e desaparecia. Para ser sincero, na nossa aldeia, que uma sebe de montes abraça, nunca ninguém viu o rosto do homem e ninguém lhe sabia o nome. Mas, pela manhã, as pessoas acordavam pobres. Pobres, sempre mais pobres e tristes.
As palavras, nesse tempo, eram de ouro.

O homem introduzia uma palhinha invisível no nosso silêncio e apartava as palavras. Da mesma arte se servia para desencaminhar palavras dos livros e dos jornais. Não as roubava todas, porque isso daria muito nas vistas. Ele aprisionava as palavras alegres, as mais luminosas, as nossas melhores palavras — e nós sobrevivíamos no meio de palavras sem sabor.
Palavra insípida é como fruto desconhecido do sol.
Cada dia vivido, menos palavras havia para agasalhar a tristeza. Era como se a mãe quisesse fazer um pão-de-ló e não houvesse açúcar; como se nós fôssemos abelhas proibidas de produzir mel.
Impedidos das palavras luminosas, emagrecia a imaginação: e assim seria impossível pedalar até ao fim dos sonhos. O sonho, na nossa aldeia, era veludo que enxugava a melancolia.
Nós conhecíamos o local onde o homem abrigava o saco da alegria. Ficava num bosque cerrado, nem o sol podia furar a copa das árvores. O bosque estava povoado de cogumelos: engordavam de sombra e de humidade. Alguns cogumelos atingiam a grandeza das árvores!
Nenhum de nós podia ir ao bosque. Entre outras palavras, ele roubou-nos a coragem. Também correu a notícia de que os cogumelos seriam venenosos. Todos os cogumelos, os pequenos — do tamanho de guarda-chuva aberto — e os grandes. Bastaria olhá-los e perderíamos a vida!
Com o andar do tempo, a nossa tristeza transformou-se em nuvem. E essa nuvem, de um momento para o outro, rasurou o sol em quase metade da aldeia: essa parte do povoado ficou sombria como o bosque.
Todos os dias, porque o silêncio era tecido de palavras sem sabor, a nuvem estendia o domínio. Temeu-se uma praga venenosa de cogumelos! Para afastar a maldição, pela manhã, queimávamos rama verde de pinheiro em redor das casas.
Os cogumelos, enfim, não levantaram a cabeça. Mas a nuvem, que medrava com o fumo da rama verde, tinha fome, imensa fome de claridade. Grande parte da aldeia, a dada altura, era noite. A calamidade! A calamidade, provocada pelo musgo verde, muito verde deu o primeiro sinal.
«Estranha doença!», disseram os velhos.
No rosto das crianças da aldeia despontou estranha barba, muito verde e húmida.
Testámos todos os xaropes caseiros e outras mezinhas da imaginação do povo. Nada. Nada estorvava o avanço do musgo no rosto das crianças. E também de pouco valia ir ao barbeiro. Ele, com a costas da navalha, limpava a nossa cara, mas, na manhã seguinte, a barba irrompia com mais fulgor.
Os velhos disseram: «Ninguém pode ser homem antes do tempo, é contra as leis da natureza!»
Mandaram chamar o médico.
Não escondeu o espanto, o médico que veio de longe. Primeiro, por ver o dia e a noite no mesmo sítio e à mesma hora. Depois a surpresa multiplicou-se à medida que lhe surgiam meninos barbados e tristes. Apenas observou, com minúcia, uma criança, e achou remédio para rebater o mal de todas as outras. Abriu a pasta de couro, retirou um caderno e a caneta. Escreveu rápido. Entregou a receita, não aceitou o dinheiro da consulta. E partiu a toda a velocidade, como se a nossa doença alastrasse por contágio.
O ladrão de palavras estava junto de nós. Ninguém o viu, mas ele esteve sempre no meio de nós. Adivinhámos a sua presença pelas palavras que a palhinha invisível havia sorvido da receita:
«A sombra misturou-se com a tristeza. Só                 um              ,     colher   vezes       dia
               ,             ,  silêncio.»
A nuvem, nesse instante, cresceu largos metros: porque todos nós, velhos e novos, sem saber o que o médico nos havia indicado, ficámos ainda mais tristes. Mas a última palavra da receita (que o Ladrão terá achado de pouco valor para guardar no saco de linho), abria uma pista. Se descobríssemos o verbo que precedia silêncio, seria desvendado o mistério.
O automóvel do médico havia já dobrado o monte, e foi então, de forma inesperada, que se ouviu o grito:
«É preciso prender o ladrão de palavras!»
O grito atravessou a aldeia, acordou os cães do lado onde era noite, assustou as galinhas da parte onde era dia.
Uma mulher ergueu a voz e os braços na direcção da nuvem: afrontou (afrontar, o verbo que procurávamos) o silêncio. De repente, outros habitantes resgataram a coragem, a palavra coragem, adormecida no bosque dos cogumelos!
A nuvem estremeceu, depois, como bicho do monte, fugiu espavorida. Num instante, o céu ficou leve, azul, imensamente azul. E o sol, generoso, bebeu a nossa melancolia.
Em grande festa, o povo partiu à descoberta do bosque. Primeira surpresa: não havia cogumelos gigantes, muito menos venenosos. Mas o saco de linho estava lá, ao pé de um velho medronheiro. Abrimos o saco e o saco nada tinha!
Nesse dia luminoso, verdadeiramente luminoso, no saco de linho vazio prendemos o ladrão da alegria. Ele, afinal, era uma palavra — a palavra medo.

Aulas da TV estão no YouTube




As emissões do projeto #EstudoEmCasa a difundir pela TV estão  disponíveis no YouTube. Para isso, foram criados vários canais, um por cada ciclo / nível de ensino, a que é possível aceder a partir do seguinte endereço: www.youtube.com/channel/UChcfiTs4sqjwRS6fzaxKyog/

Série animada: TED-Ed Pensa como um Programador

TED-Ed: Pensa como um programador, episódio 5: "Os Artistas"



Este é o episódio 5 da nossa série animada "Pensa como um Programador". Esta narrativa em 10 episódios acompanha uma rapariga, a Ética, e o Hedge, o seu companheiro robô, quando os dois tentam salvar o mundo. Os dois entram numa demanda para reunir três artefactos e têm de descobrir o caminho, através duma série de "puzzles" de programação. Lição de Alex Rosenthal, realização de Kozmonot Animation Studio.

Datas Comemorativas

5 de junho -Dia Mundial do Ambiente

 

O que farias SE PUDESSES MUDAR O MUNDO, de forma a TODOS podermos ter um futuro mais SUSTENTÁVEL?
🌍🐦🐋🌵🐅🌿🌳👨‍👩‍👧‍👦🦏🦝💦🌊🥦🍅🚣‍♀️🏜🏞🗑⛺️🗻🙆‍♂️🌎

Convidamos-te a escreveres, nos comentários desta publicaçao, as tuas ideias, iniciando a frase por: “Se eu pudesse mudar o Mundo…”

Corujinha Sabichona

 Ajuda para aprender Estudo do Meio (1.ºCiclo)


A "Corujinha Sabichona" é um Canal do Youtube dedicado à divulgação de animações sobre as matérias que fazem parte da disciplina de Estudo do Meio. Na informação do canal lemos:
"Pretendemos ser uma ajuda para os pais que se preocupam com o estudo dos filhos, ao mostrarmos a matéria de um modo simples e atrativo.
Aos professores que nos visitam, convidamo-los a usarem as nossas animações em contexto de sala de aula, para consolidação dos conhecimentos dos alunos.
A todos os meninos e meninas que nos visitam, esperemos que gostem e que, acima de tudo, estudem e se divirtam."


Ler Histórias: O peixe de ouro



Era uma vez um pescador que vivia com a mulher numa velha cabana à beira-mar. Todos os dias partia no seu barco, feliz por reencontrar as ondas coroadas de espuma, por sentir o sol acariciar-lhe a face e o vento soprar-lhe docemente nos cabelos. Por vezes, maravilhado com um pôr-do-sol, quedava-se, extasiado pela beleza do mundo, e esquecia-se até de lançar as redes.
Numa manhã em que o mar estava particularmente calmo, lançou as redes à água límpida, dando graças ao céu por tão belo dia. Teve muita dificuldade em puxá-las. Puxou com todas as suas forças, pensando que apanhara vários peixes grandes. Mas, no meio das redes, havia um único peixe de escamas douradas. Ficou muito surpreendido quando o peixe lhe falou com voz humana:
— Peço-te, pequeno pescador, deixa-me voltar para o mar. Dá-me a minha liberdade e dar-te-ei o que quiseres.
O pescador pegou nele delicadamente e pô-lo de novo na água.
De volta a casa, contou a sua aventura à mulher, que ficou muito zangada:
— Ao menos, podias ter-lhe pedido pão! Há muitos dias que não temos pão. Volta lá e pede-lhe pão bem fresco.
O pescador voltou ao lugar onde tinha largado o peixe. Uma brisa suave soprava no mar e as pequenas ondas salpicavam docemente o casco do barco.
— Peixe, peixinho de ouro, vem cá! Vira a cabeça p’ra mim, minha mulher quer assim!
O peixe apareceu e perguntou:
— O que me quer ela?
— Acha que eu deveria ter-te feito um pedido quando estavas preso na minha rede. Queria que nos desses pão.
— Volta para casa — respondeu-lhe o peixe. — Ela já tem o que queria.
Ao chegar a casa, o pescador encontrou a mulher ocupada a empilhar formas de pão e sacos de farinha a um canto da cabana.
— Estás a ver como fiz bem em mandar-te lá? — perguntou ao marido.
Passado um mês, porém, a mulher do pescador começou a queixar-se.
— Devias ter-lhe pedido uma casa. Olha para esta cabana miserável, quase não se aguenta de pé! Na verdade, o que nos faz falta é uma boa casa. Vai ter com o peixe de ouro e pede-lhe uma.
O pescador voltou, contrafeito, ao lugar onde tinha largado o peixe. O sol desaparecera por detrás das nuvens e o vento tinha-se levantado, fazendo oscilar o barco.
— Peixe, peixinho de ouro, vem cá! Vira a cabeça p’ra mim, minha mulher quer assim!
O peixe tirou a cabeça da água e perguntou-lhe:
— E o que quer ela agora?
— Quer uma casa. A nossa cabana está muito velha.
— Volta para casa. Ela já tem o que desejava.
Ao chegar a casa, o pescador encontrou a mulher com um vestido novo, na soleira de uma grande casa de pedra. Atrás de um belo pomar, viu igualmente uma capoeira e um estábulo.
— Vês — disse-lhe a mulher — fiz bem em mandar-te lá.
Mas, duas semanas depois, a mulher do pescador voltou a queixar-se:
— Esta casa é demasiado pequena. Precisamos mas é de um castelo. Vai de novo ter com o teu peixe e diz-lhe que quero morar num castelo.
Tanto o atormentou, que o pescador voltou ao mesmo lugar. O vento soprava agora em fortes rajadas e grandes ondas abanavam o barco por todos os lados.
Contrafeito, o pescador chamou o peixe de ouro:
— Peixe, peixinho de ouro, vem cá! Vira a cabeça p’ra mim, minha mulher quer assim!
O peixe tirou a cabeça da água e perguntou-lhe:
— O que quer ela desta vez?
— Quer um castelo. Acha a casa pequena demais.
— Volta para casa — respondeu o peixe. — Ela já tem o que queria.
Ao chegar a casa, o pescador viu a mulher magnificamente vestida, no pátio de um grande castelo, que estava rodeado por um belo parque. Dezenas de criados atarefavam-se por todo o lado.
— Vês como fiz bem em mandar-te lá?
Mas, no final da semana, a mulher acordou-o uma manhã com um forte abanão:
— Temos de ser os soberanos deste país. Corre e pede ao peixe que nos faça rei e rainha.
— Mas eu não quero ser rei — disse-lhe o pescador.
— Mas eu quero ser rainha. Vai depressa dizer-lhe que quero governar o país.
Triste e com o coração pesado, o pescador voltou à margem. Relâmpagos flamejantes percorriam o céu escuro e ondas ameaçadoras por pouco não viraram o barco.
— Peixe, peixinho de ouro, vem cá! Vira a cabeça p’ra mim, minha mulher quer assim!
O peixe tirou a cabeça da água e perguntou-lhe:
— O que mais quer ela?
— Quer ser rainha. Quer que todos a sirvam.
— Volta para casa — disse-lhe o peixe. — Ela já tem o que exigiu.
Ao chegar a casa, o pescador viu um palácio esplêndido, guardado por inúmeros soldados. A mulher encontrava-se no interior, sentada num trono enorme. Tinha na cabeça uma pesada coroa de ouro, incrustada de diamantes, e trazia um vestido sumptuoso, semeado de finas pérolas.
— Vês como fiz bem em mandar-te lá? — perguntou ao vê-lo.
Mas, nessa noite, na grande cama coberta de peles, a mulher do pescador não conseguia dormir. Perguntava-se o que mais poderia obter do peixe. E quando a alvorada iluminou o céu, pôs-se a gritar de cólera:
— Como é possível? Quando quero dormir é que o sol se levanta, e sem a minha autorização. Vai depressa ter com o peixe e diz-lhe que desejo que os astros me obedeçam.
E ordenou aos guardas que o pescador fosse posto fora de portas. Pesaroso, o pescador voltou ao mar.
Uma tempestade enorme desabara sobre o oceano. As ondas rebentavam em cima do barco do pescador, que não o conseguia controlar. Várias vezes chamou o peixe com todas as suas forças, enquanto a violência do vento lhe abafava a voz:
— Peixe, peixinho de ouro, vem cá! Vira a cabeça p’ra mim, minha mulher quer assim!
O peixe tirou, por fim, a cabeça da água e perguntou:
— Mas o que mais pode ela ainda querer?
— Quer reinar sobre o universo inteiro.
— A tua mulher nunca se sentirá satisfeita. Adeus, caro pescador, nunca mais voltaremos a ver-nos.
Ao chegar a casa, o pescador viu que o palácio tinha desaparecido e que, no seu lugar, se encontrava de novo a cabana decrépita. A mulher choramingava, envergando o seu velho vestido remendado.
— Não chores — disse o pescador. — Não eras mais feliz quando eras rainha. A maior felicidade consiste em estar-se contente com o que se tem.
E partiu, feliz, para pescar o alimento de todos os dias no mar límpido e tranquilo.
Johanna M. Coles; Lydia M. Ross, L’Alphabet de la Sagesse, Paris, Albin Michel Jeunesse, 1999

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Ler Histórias: A carpa

 



Embora fosse um camponês trabalhador, a colheita foi muito pobre naquele ano devido à ausência das chuvas, a ponto de mal ter para alimentar a mulher e os filhos. Em situação desesperada, não teve outro remédio senão recorrer a um abastado nobre para lhe suplicar:
— Senhor, fie-me alguns grãos para não morrermos à fome.
— Está bem — respondeu o poderoso. — Vou dar-te bem mais do que aquilo que me pedes: vou emprestar-te várias moedas de ouro, mas terás de esperar uns meses até que faça a coleta dos impostos, está bem?
— Quero contar-lhe uma coisa, senhor — disse o camponês. — Quando vinha para lhe suplicar ajuda, ouvi uma voz angustiada que pedia socorro. Ao acudir ao chamamento, vi que se tratava de uma carpa que se encontrava numa terrível situação. Estava caída no meio do poeirento caminho, sob um sol abrasador e dizia:
— Sou do rio e estou a morrer neste pó. Por favor, não tens um balde de água onde eu possa mergulhar?
Respondi-lhe:
— Está bem, está bem. Vou fazer mais do que isso: vou trazer-te uma bacia muito grande, mas terás de esperar até que vá para Sul e traga água do rio que lá existe, está bem?
Então a carpa, à beira da morte, disse-me:
— Fazes promessas, mas não me facultas a única coisa que pode salvar-me a vida: um balde de água. Quando trouxeres a bacia, já terei morrido.
Muitas vezes não só não somos generosos como pretendemos justificar a nossa ausência de generosidade servindo-nos de pretextos ou de falsas justificações. A avareza torna-nos insensíveis, endurece-nos o coração e faz-nos viver de costas voltadas para as necessidades alheias, esquecendo-nos de ser solidários.
O antídoto para a avareza é a generosidade, uma das qualidades mais belas do ser humano, que é preciso aprender a cultivar. É também fruto da compaixão e de uma perceção correta das coisas. A compaixão consiste em compreendermos o sofrimento alheio, mas, também, em usarmos os meios que temos ao nosso alcance para o prevenir ou minorar.
Ramiro Calle
Os melhores contos espirituais do Oriente
Esfera dos Livros, Lisboa, 2010

Ler/Ouvir Histórias

O coração e garrafa


Ler/Ouvir Histórias

O incrível rapaz que comia livros



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(procurar «livros para escutar», na coluna da direita)

Bom fim de semana! 🥰